Pular a navegação e ir direto para o conteúdo


Blog

Produtividade com máxima eficiência

GPS COLLHEITADEIRA

Em meio século de evolução, a indústria de máquinas e implementos mantém investimentos em tecnologias avançadas para oferecer menores custos e maior rentabilidade

de Patrícia Carvalho - Revista Maquinas & Inovações Agrícolas

Na trajetória cinqüentenária da mecanização agrícola no Brasil, a indústria de máquinas teve o importante papel de fazer crescer a produção

de alimentos. Desde a chegada das primeiras máquinas a vapor até os últimos tempos, a vertiginosa evolução industrial a que o mundo assistiu revela o esforço dos centros de desenvolvimento mundiais. Hoje, máquinas modernas já oferecem dispositivos sofisticados

de eletrônica embarcada e georreferenciamento que garantem melhor desempenho e menor consumo energético. O futuro já está em gestação nas pranchetas dos engenheiros e pesquisadores, seguindo em direção à utilização de combustíveis renováveis e até mesmo células a combustível, com hidrogênio. Nas propriedades rurais brasileiras, o maior avanço passa pela consolidação do plantio direto com a utilização de equipamentos

de agricultura de precisão. “Foi o modelo que possibilitou uma postura gerencial que pode ser empregada por todos os produtores rurais nas mais diversas culturas, de qualquer região – desde os agricultores familiares até os exportadores”, destaca o pesquisador Ricardo Yassushi Inamasu.

Colheitadeira oferece dispositivos sofisticados de eletrônica embarcada e georreferenciamento da Embrapa Instrumentação, coordenador

da Rede de Agricultura de Precisão. No desenvolvimento de novos produtos, a indústria aumentou a potência dos tratores e das máquinas para aperfeiçoar sistemas e métodos. Os resultados com os esforços da área industrial e dos institutos de pesquisas na criação de novos produtos e sementes são evidentes no campo.

Mais de 30% dos ganhos de produtividadenos últimos anos é resultado dessa histórica parceria que se estabeleceu ao longo da história da mecanização. Segundo estatísticas do MAPA, desde a década de 1990, o crescimento anual de grãos avançou 5% ao ano, outros 30% vieram da utilização de máquinas agrícolas. A última safra 2010/2011 colheu 150 milhões de toneladas de grãos, gerou R$ 95 bilhões de renda bruta e resultado positivo na balança comercial do País.

Eletrônica embarcada

Os avanços tecnológicos nas máquinas agrícolas, porém, não estão restritos apenas aos motores à propulsão. Segundo o dirigente da SAE, em pouco tempo muita eletrônica e computação irão se tornar comuns graças à chegada dos sistemas que automatizam tarefas que hoje necessitam de um operador. “A robótica vai permitir a existência de máquinas que operam de maneira semiautônoma, com o uso do sistema de posicionamento global (GPS)”, diz Daniel Zacher. Outra grande aposta da indústria de máquinas agrícolas é a integração dos equipamentos. Um bom exemplo é a plantadeira monitorada por um GPS. A tecnologia armazena em um cartão de memória a “rota” percorrida ao abrir as linhas da lavoura, para que mais tarde essa informação seja usada para guiar tratores e colheitadeiras em outras etapas do cultivo. Werner Santos, diretor de vendas da John Deere, explica que o pacote de engenharia de precisão da marca, o sistema AMS (Agricultural Management Solutions, ou Soluções de Manejo Agrícola) utilizado no plantio, garante dados georreferenciados para o produtor em toda a safra. “As máquinas sabem exatamente por onde passar, onde colher e plantar, com uma precisão de 2 cm”, diz. O benefício é mais visível em culturas perenes, como a cana, que dá cinco ou seis colheitas. “Usando essa tecnologia, as linhas são muito paralelas no plantio e, na hora de colher, a máquina passa exatamente entre as plantas, não sobre elas”, afirma Santos. Sem um sistema assim, explica, é muito comum que ocorra o pisoteamento das raízes da cana. Entre a maior eficiência na colheita e a redução das perdas causadas pelo passo das máquinas, o sistema resulta em um aumento de produtividade na prática entre 6% e 8%.

Novas pesquisas

A agricultura de precisão é apenas um dos flancos de investimentos pesados da indústria em novas tecnologias. O uso de combustíveis renováveis, projetos que envolvem novos formatos de maquinários, mais flexíveis e aptos a diversas funções, ao lado da preocupação constante com a sustentabilidade, têm motivado os engenheiros nos centros de Pesquisa e Desenvolvimento das empresas a atuarem de olho no futuro. Na largada para acompanhar um dos maiores movimentos da atualidade, a finlandesa Valtra já exibiu o seu mais novo engenho: a máquina conceito Valtra ANTS (iniciais que denotam as atuais séries de modelos da marca, mas em inglês também é o plural de “ant”, formiga). A solução revolucionária,indicada para trabalhos pesados, foi apresentada em riqueza de detalhes na terceira edição de Máquinas & Inovações Agrícolas. O ANTS, inspirado justamente no comportamento das formigas, incorpora dois módulos básicos a unidade de segurança, com potências de 100 kW e de 200 kW, capazes de trabalhar individualmente ou combinados.

A New Holland, por sua vez, não ficou atrás. Na Europa já apresentou o trator movido a hidrogênio, que pode ser o primeiro veículo autossustentável no campo. O protótipo, que foi matéria na segunda edição de M&IA, já rendeu à montadora prêmios de design no exterior. “O motor a hidrogênio vai ser uma realidade mais rapidamente para as máquinas agrícolas que para os carros”, acredita o coordenador de vendas de agricultura de precisão da New Holland, Jorge Strina. Para Strina, no caso da máquina não há limitação de espaço (em um carro, a tecnologia atual obrigaria a colocar o tanque no porta- malas, como acontece com o gás natural). Outro ponto a favor da tecnologia é a autonomia não ser um problema tão crítico em um trator quanto em um carro. E por fi m, em uma fazenda a matéria-prima é abundante (palha, dejetos animais) e pode ser facilmente armazenada. “Mesmo que a máquina custe um pouco mais caro, se a necessidade existe, ela vai ser viável para o produtor”, diz Strina. Na opinião de Daniel Zacher, vice-diretor regional da seção de Porto Alegre da SAE- -Brasil , o futuro vai chegar mais rápido do que se pensa ao campo brasileiro. “As fontes alternativas de energia e propulsão estão na ordem do dia”, enfatiza. Como a indústria nacional de máquinas agrícolas exporta para cinco continentes, é preciso estar atenta às legislações ambientais norte-americana e européia, que devem endurecer muito nos próximos anos.

Nesse caso, o motor movido a hidrogênio pode ajudar a reduzir o custo e também a contaminação causada pela máquina, já que seu subproduto é a água, e não o gás carbônico e a fuligem produzida pelos motores tradicionais. “A redução dos níveis de emissões dos motores já é um fator importante lá, e aqui será a partir de 2013”, garante o especialista.

Enquanto esse conceito não chega ao mercado, outras iniciativas estão a caminho. “Já existe um protótipo de motor a diesel que também opera com etanol”, garante Zacher. Qualquer semelhança com os carros fl ex é mera coincidência. “No trator há dois tanques e duas bombas de injeção, os combustíveis não se misturam”, compara. Apesar de ainda necessitar de diesel para arrancar, esse modelo permite usar um combustível renovável, proporcionando ao mesmo tempo impacto ambiental positivo e economia de custos, principalmente onde o álcool está disponível em quantidade.

Evolução

Na visão do pesquisador Inamasu, da Embrapa, o setor de máquinas e equipamentos é um dos mais entusiasmados pólos de desenvolvimento de novos produtos em todo o mundo, e no Brasil não é diferente. “Talvez por esse motivo estabeleceu -se um senso comum no País, de que o tema Agricultura de Precisão é uma área em que predomina o conhecimento relacionado à sofisticação das máquinas agrícolas por meio de eletrônicas embarcadas e sistemas computacionais complexos”, opina. Na visão do especialista, uma propriedade que apresenta variação na produtividade deve ser vista como problema de gestão da produção e não das máquinas. “É preciso fazer uma gestão com bom senso, utilizando técnicas certas em áreas diferentes”, afirma. Um bom exemplo disso é a tecnologia apresentada pela Valtra para atender ao setor canavieiro, por meio da divisão de tecnologia da AGCO e Topcon. O conceito se resume na implantação de programas que permitem o planejamento das operações e a passagem de máquinas e implementos em determinadas áreas, utilizando o mesmo rastro, integrando todas as operações na lavoura. A técnica elimina a compactação do solo nas demais áreas e aumenta a capacidade  operacional de plantio em até 20%, reduzindo o consumo de combustível. “Além de melhorar a efi ciência das máquinas agrícolas, o uso de tecnologias de direcionamento automático minimiza o pisoteio na cultura da cana”, garante Rafael Costa, coordenador de marketing de produto ATS Valtra.

De acordo com pesquisas da Valtra, em sistemas convencionais de plantio, a compactação do solo pode chegar a 86%, em plantio direto a 46%, já com a implantação do conceito de integração, esse percentual cai para 14%. O aumento da densidade do solo acarreta perdas como má qualidade da semeadura, crescimento lento e distorcido de raízes e a redução de porosidade, aeração e infi ltração de matéria orgânica e líquida no solo. “Recuperar uma área prejudicada pela compactação pode levar até dois anos e isso tem um alto custo para o produtor”, estima.

Inovação

Há dois anos a Rede de Pesquisas em Agricultura de Precisão da Embrapa estabeleceu novas diretrizes. Levando em consideração várias dimensões do sistema produtivo, a entidade quer gerar ferramentas e inovações tecnológicas, visando a incrementar a efi ciência de sistemas produtivos. “Tudo para buscar maior competitividade e sustentabilidade do agronegócio brasileiro”, afirma o coordenador da rede, Ricardo Isanamu. Os objetivos da rede, que conta com a colaboração e o apoio das indústrias de máquinas e implementos, são: gerar tecnologias para otimizar a aplicação racional de insumos; reduzir riscos e degradação ambiental; maximizar o retorno econômico; estudar as causas da variabilidade espacial e temporal das respostas dos sistemas produtivos, além de desenvolver mecanismos e procedimentos para a construção de sistemas de suporte à tomada de decisão em sistemas produtivos; mensurar a eficiência econômica e ambiental pela adoção de tecnologias da Agricultura de Precisão, assim como disseminar as tecnologias e avaliar o nível de adoção da Agricultura de Precisão no Brasil. Para atingir todos esses objetivos, a rede conta com 19 Unidades de Pesquisa (UP) da Embrapa e cerca de 200 pesquisadores, distribuídos em 15 unidades experimentais nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do País. “Trabalhamos com 11 culturas entre perenes e anuais e cerca de 100 atividades de PD&I”, afi rma o pesquisador. Paralelamente a essas atividades estão em desenvolvimento novas ferramentas, como: metodologias em geoprocessamento; tecnologia da informação; processamento de imagem; mineração de dados; eletrônica embarcada; redes de sensores sem fi o; protocolo de comunicação entre máquinas agrícolas; novos sensores; atuadores e controladores. Esses temas relacionados às pesquisas básicas predominantemente na área de tecnologia da informação e de instrumentação atuarão de forma a receber orientações das UP para aumentar o potencial de uso e de impacto nas cadeias das culturas abordadas pelo projeto. Os testes e eventuais validações dos protótipos em campo ocorrem nessas UP. Outra prioridade da Rede é aprimorar a interoperabilidade entre as máquinas agrícolas e a integração das informações. “Os formatos de dados e de arquivos definidos individualmente por fabricantes são incompatíveis entre as diversas opções do mercado, dificultando a comunicação e o fluxo mais dinâmico da informação”, afirma Isanamu. O avanço da tecnologia ISOBUS – 11 783, em uso na Europa em tratores e máquinas agrícolas e florestais, oferece conectividade de dados e de algumas informações processadas entre os dispositivos eletrônicos embarcados em tratores e implementos. A invenção, apresentada em destaque na quinta edição de M&IA, revolucionou a conectividade de dados e de algumas informações processadas entre os dispositivos eletrônicos embarcados em máquinas agrícolas. Com o padrão ISOBUS implementado, a máquina pode obter dados de sensores como receptor GNSS, rotação do motor do trator, entre outros dados, além de utilizar recursos como monitor e dispositivo de armazenamento de dados, como cartão de memória, independentemente do fabricante ou modelo. “Essa tecnologia é uma ferramenta fundamental para que a Agricultura de Precisão seja expandida e máquinas como a de aplicação à taxa variada sejam adotadas a um custo menor e conectada de forma mais funcional”,garante o pesquisador.

Setor de implementos buscou soluções no campo

A indústria de implementos agrícolas também teve um papel relevante no desenvolvimento do agronegócio brasileiro. Em meio século de atividade, o setor evoluiu muitas vezes apoiado na necessidade dos produtores rurais. De pequenas oficinas para conserto e desenvolvimentos de equipamentos diversos, primeiro para uso em tração animal, depois para acoplar em tratores importados, muita coisa mudou. O empresário italiano Ítalo Bellandi, que fundou a Guarany no Rio Grande do Sul, em 1923, foi uma das primeiras empresas a se destacar nesse setor. A exemplo da maioria dos empreendedores, quando surgiu não produzia implementos, mas corantes para tecidos. Os irmãos Carillo e Narciso Baldan também foram exemplos de pioneirismo e quebra de dependência dos produtos importados. Em 1928 começaram fabricando ferramentas e consertando carroças, utensílios e implementos para lavoura.

 

Mas foi na década de 1940 que as empresas que hoje tem uma presença marcante no mercado se formaram e iniciaram a consolidação, como a Fuchs (1942), Schneider Logemann – SLC (1945), Marchesan (1946) e Jacto (1949), entre outras. Atualmente, 405 empresas (a maioria de gestão familiar) formam o conglomerado de indústria de implementos. “Muitas delas possuem centro de desenvolvimento tecnológico e laboratórios próprios além de convênios com instituições de pesquisa e desenvolvimento”, diz Celso Casale, presidente da Câmera Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA), principal entidade representativa do setor. Ele acrescenta que as mais recentes tecnologias desenvolvidas e aperfeiçoadas pela indústria de implementos estão em sistema de controle com GPS, aplicadas em adubação, plantio e colheita, assim como o controle eletrônico das pulverizações, alimentação de gado e implementos sofisticados para o plantio da cana-de-açúcar. “Fabricamos produtos com o mesmo nível tecnológico que a indústria de máquinas agrícolas”, garante.

Quer ver mais matérias como essa? Acesse: http://viewer.zmags.com/publication/2afdba2c#/2afdba2c/40

 

Compartilhe